Então, imagine se… o mundo continuasse — mas não fosse mais o mesmo?
Então, imagine se… o mundo continuasse — mas não fosse mais o mesmo?
O brilho da névoa misteriosa ainda pulsava no visor do Observador.
Ele tentou, mais uma vez, ajustar o foco — mas o continente americano continuava invisível, engolido por aquela névoa viva que cobria tudo, de ponta a ponta.
— Nada ainda, Narrador?
— Negativo — respondeu a IA, com voz analítica. — A estrutura da névoa permanece estável… mas inteligente. Continua reagindo às nossas leituras.
— Como se soubesse que estamos observando…
O silêncio tomou conta da sala.
O Observador recostou-se lentamente na cadeira, os olhos fixos nas lentes dos óculos dimensionais.
Do outro lado daquela névoa, deveria estar o Brasil.
Com seus estados, suas cidades, sua vastidão — de São Paulo ao Amazonas, do Rio Grande do Sul ao Ceará.
Mas agora…
era apenas ausência.
Ou algo pior.
Um território oculto.
Ele respirou fundo.
Não adiantava insistir.
Ainda não.
— Então vamos mudar o ângulo — disse, finalmente. — Mostre-me o outro lado do planeta.
— Executando.
A visão começou a girar lentamente.
O oceano surgiu.
Mas até ele parecia… ligeiramente diferente.
As correntes não seguiam o padrão esperado.
As formações de nuvens pareciam deslocadas.
E então…
A Europa apareceu.
O Observador se inclinou para frente.
Algo estava errado.
Muito errado.
As linhas costeiras estavam distorcidas.
O sul do continente se estendia além do esperado, formando uma ligação direta com outra massa de terra.
Não era apenas uma variação geográfica.
Era uma alteração estrutural.
— Isso é… impossível — murmurou ele. — Onde estão as divisões políticas?
— Detectando menos países do que o esperado — respondeu o Narrador. — Estimativa: trinta e três ou trinta e quatro no máximo.
— Apenas isso?
— Algumas regiões apresentam fusões territoriais. Outras utilizam idiomas híbridos, incluindo variações que misturam português com outros dialetos.
O Observador ampliou a imagem de uma das grandes cidades.
Uma metrópole viva surgiu diante dele.
Veículos com design retrô cruzavam avenidas largas.
Estruturas metálicas refletiam a luz com precisão quase perfeita.
Tudo parecia avançado…
mas ao mesmo tempo preso em outro tipo de evolução.
— É como se o desenvolvimento deles tivesse seguido um caminho diferente… — disse ele.
— Correção: desenvolvimento divergente — respondeu o Narrador. — Não há sinais de tecnologia digital convencional. Porém, existem sistemas de comunicação de larga escala baseados em ondas.
— Então eles evoluíram… mas não como nós.
— Exato.
O Observador ativou o foco auditivo.
Vozes começaram a surgir.
Línguas estranhas.
Mas familiares.
Uma transmissão se destacou entre todas:
— “As tensões entre blocos territoriais continuam aumentando. O conselho central tenta conter avanços no sul…”
O Observador congelou a imagem.
— Blocos territoriais… não países.
— Confirmação.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Aquilo não era uma variação simples.
Era uma realidade inteira construída de outra forma.
— Isso não é o passado… — disse, finalmente.
— Concordo — respondeu o Narrador. — Não corresponde a nenhuma linha histórica conhecida.
A voz da IA mudou levemente de tom.
Mais grave.
Mais precisa.
— Nossa travessia não foi apenas temporal.
O Observador já sabia.
Mesmo assim, perguntou:
— Então o que foi?
— Uma travessia dimensional.
Silêncio.
— Estamos observando uma realidade paralela.
O peso daquelas palavras se instalou no ambiente.
O Observador cruzou os braços.
Pensativo.
Intrigado.
Mas algo ainda o puxava de volta.
Para trás.
Para a névoa.
Para aquilo que ele não podia ver.
Para o Brasil oculto.
— Narrador… — disse ele, sem tirar os olhos da nova paisagem.
— Sim?
— Quero entender até onde essa alteração vai.
— Processando mapa tridimensional.
A imagem começou a girar novamente.
Expansões territoriais surgiam.
Ligações improváveis entre continentes.
Novas áreas habitadas.
Novas estruturas.
— Isso não existe na nossa Terra… — disse o Observador.
— Não — confirmou o Narrador. — E, segundo as leituras, essas regiões foram colonizadas.
— Por quem?
— Ainda não posso determinar. Preciso de mais tempo.
O Observador assentiu lentamente.
Mas sua mente ainda estava presa a um único ponto.
Aquele continente invisível.
— Faça isso — disse ele. — Cruze todos os dados possíveis.
— Executando.
A voz do Narrador diminuiu.
— Talvez… a resposta esteja ligada àquela névoa.
Silêncio.
O Observador voltou o olhar para o planeta.
Mesmo distante…
mesmo fora de foco…
ele sabia exatamente onde ela estava.
Pulsando.
Como um coração escondido.
— Então vamos descobrir — murmurou.
E ajustou novamente o visor.
Porque agora…
não era apenas sobre entender aquela nova Europa.
Nem sobre mapear aquele mundo diferente.
Era sobre algo muito maior.
Algo que havia sido escondido.
E que talvez…
não quisesse ser encontrado.
Então, imagine se… o mundo continuasse existindo… mas parte dele tivesse sido apagada de propósito?

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